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domingo, 28 de junho de 2009

terráqueos

Não sou vegetariano, mas depois de ver esse vídeo, penso que, ao comer carne, deveria ter pelo menos a preocupação de saber a origem dos alimentos que chegam à nossa mesa - algo difícil de descobrir hoje em  dia, ao comprar carne num supermercado, por exemplo. 

Creio que precisamos voltar - ou avançar - a uma fase da nossa cultura/civilização em que conhecíamos toda a cadeia de produtores, fornecedores e intermediários do que comemos e consumimos.  Perdemos esse link, e com ele perdemos nossa humanidade. 

Este vídeo contém cenas reais de crueldade com animais, mas precisa ser visto, para termos pelo menos consciência de nossos atos, cada vez que ingerimos carne animal. 




Se não abrir no google vídeo, que demora para carregar, também pode ser visto no youtube, em nove partes - eis o link para a primeira parte: http://www.youtube.com/watch?v=VADrTscciHA



segunda-feira, 25 de maio de 2009

a civilização e seus descontentes


A Coréia do Norte acaba de realizar uma explosão atômica. O Irã recém testou míssil de longo alcance e declara que não abrirá mão do seu programa nuclear. Somália e Guiné-Bissau perderam suas estruturas de Estado e estão à mercê de saqueadores, piratas e traficantes.  O Paquistão precisa usar o exército contra seu próprio povo, para conter aquela parcela que viu no radicalismo talibã a única salvação. Bento XVI mantém a igreja na condenação do controle da natalidade, da homossexualidade, do aborto, das pesquisas com células-tronco. A crise econômica fez baixar névoa densa no horizonte da globalização. O México perde mais de 8 % do PIB, sem contar ainda os efeitos da gripe suína (oops, da gripe A h1n1). Fora os otimistas de plantão, ninguém é capaz de prever o fim da crise nem o quanto ela afetará a distribuição de poder e riqueza no mundo. A ciência concentra atenção na mudança do clima e busca respaldo político para empurrar tecnologias verdes e energias renováveis. As novas visões do espaço, obtidas de sondas, satélites e telescópios superpotentes, lançam mais incertezas sobre o que pensávamos conhecer do Universo. 

Este poderia ser um breve retrato da aventura civilizatória hoje. O mundo está mais inseguro, mais violento, mais incerto, mais à deriva do que jamais esteve. E, no entanto, nunca vivemos tanto nem tão bem, nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, ao consumo, ao prazer. Nunca nosso leque de opções foi tão amplo, ao ponto de podermos escolher se frequentamos missas ou orgias, raves ou almoços de família, shoppings ou caminhadas ecológicas, museus ou montanhas-russas, escolas ou lan houses, ou ambas, ou todas as opções e muitas outras, cada qual à sua hora. 

Mas estamos contentes? Era esse o almejado produto da civilização? Foi para isso que se sacrificaram vidas, que se eliminaram povos, que se massacraram inocentes, que se encarceraram irmãos? Tudo para que tivéssemos o gostinho de sabermo-nos livres - ainda que poucos dentre nós pudéssemos traduzir essa liberdade em ação? Por que a grande maioria das pessoas infelizes, depressivas, solitárias e mal-humoradas são justamente as que vivem nos países mais avançados? O que ainda falta para nos contentar? Quem se pode dizer, hoje em dia, plenamente realizado? 

Tudo leva a crer que estamos numa encruzilhada civilizatória e que uma escolha coletiva terá de ser feita, brevemente, sobre o rumo da humanidade, uma dessas que encerram eras e refundam estruturas. O problema é que se não tivermos consciência de nossas opções e não soubermos fazer as escolhas corretas, o processo de mudança será doloroso.  As turbulências que vemos no mundo - políticas, econômicas, éticas, morais, psicológicas - podem ser vistas como sinais de que essa mudança está perto - ou já terá começado, e nem percebemos porque quem está no meio da tempestade não consegue ver o tamanho do furacão. 

Com dor ou sem dor, o certo é que mudamos, e mudamos rapidamente, numa avalanche de fatos e situações que nos deixam sem chão, sem referências, sem norte. A menos que tenhamos a habilidade de adotar a postura correta: que possamos, individual e coletivamente, assumir visão integral da nossa existência, e que preparemos, assim, o parto de uma  nova consciência civilizatória, fundada em valores evoluídos e iluminados, frutos de percepção revisada do que significa estarmos vivos, estarmos aqui, habitarmos esse planeta e sermos parte do Universo. A todos os descontentes da civilização, essa parece ser uma reflexão necessária e inadiável. 


sexta-feira, 10 de abril de 2009

visão de mundo


O livro 'Cosmos and Psyche", de Richard Tarnas, é um daqueles que abre horizontes. Estou ainda nos primeiros capítulos, e não resisto a compartilhar, desde logo, algumas idéias que enriquecem tremendamente o modo de olhar para o mundo à minha volta.
Segundo Tarnas, pode-se dizer que há, hoje, duas visões de mundo, ambas igualmente humanas, que definem nossa percepção da realidade: a visão materialista, antropocêntrica e desencantada que provém do Iluminismo e a visão romântica, cosmocêntrica e integral que tenta emergir nesse começo de milênio. 
O Ocidente ainda terá que chegar a termo com o paradoxo criado por essas duas visões, aparentemente irreconciliáveis. Por um lado, avançamos no conhecimento científico e objetivo do cosmos, na complexidade dos sistemas de organização econômica e social, no aproveitamento dos recursos naturais, ao ponto de nunca termos vivido em condições tão favoráveis, e tão superiores às demais espécies do planeta. Por outro lado, esses mesmos avanços permitiram o crescimento sutil mas inexorável de uma grande crise, uma crise que vai muito além do plano econômico e financeiro, atinge também os sistemas ecológico, psicológico e espiritual que construímos ao longo dos séculos. Ao privilegiar a razão e o progresso, separamo-nos do cosmos; assumimos a exclusividade da consciência e daí partimos em nossa trajetória de domínio e poder sobre tudo o que há à nossa volta. 
Uma visão de mundo não é apenas o modo pelo qual olhamos ao nosso redor. Ela também nos atinge internamente e define o modo pelo qual nos vemos a nós mesmos. Nossa visão de mundo configura nossa experiência psíquica, impõe os limites da nossa realidade, influi nas nossas escolhas éticas, define os padrões de nossa sensibilidade, conhecimento e interação com o mundo. A mente moderna e o raciocínio lógico e racional pressupõem uma divisão fundamental entre o ser humano, dotado de subjetividade, e o resto das coisas, existentes num mundo externo a nós, impessoal, objetivo. Todo o cosmos é visto como uma vasta experiência inconsciente, nada mais é do que matéria em movimento, funciona de modo mecânico, sem qualquer propósito, governado pelo acaso e pela necessidade. Enquanto o homem é consciente de sua própria inteligência, nega a inteligência a todo o resto. Ao fazê-lo, separa-se definitivamente do meio que o cerca, e vai além: subjuga-o, analisa-o fria e metodicamente, extrai dele o que necessita para seu próprio prazer e poder. 
Uma outra visão de mundo, no entanto, é possível, e tenta emergir nesse começo de milênio: uma visão que busca incorporar nos processos humanos também o inconsciente, o simbólico, o intuitivo, o arquetípico. Essa visão seria empurrada por um desejo profundo do próprio ser humano de reintegrar-se ao cosmos, de superar a fragmentação e a alienação da mente moderna. Haveria hoje um ímpeto em favor da reconciliação entre o homem e a natureza, o self e o mundo, o espírito e a matéria, a mente e o corpo, o consciente e o inconsciente, o pessoal e o transpessoal, o secular e o sagrado, o intelecto e a alma, a ciência e as humanidades, a ciência e a religião. 
É interessante observar que, historicamente, a visão materialista surge no momento em que Copérnico apresenta sua nova cosmologia. Ao retirar a Terra do centro do Universo, alterou a natureza essencial da realidade e alienou também a alma do mundo (anima mundi). Ao descobrirmo-nos um mero acaso na vastidão do Universo, percebemo-nos abandonados à própria sorte, no silêncio de um imenso vazio cósmico, cujo propósito é totalmente desconhecido e, talvez, inexistente. É essa percepção que determinou todas as construções humanas dos últimos cinco séculos: toda experiência religiosa, toda imaginação humana, todos os valores morais e espirituais foram a ela submetidos e reduzidos a idiossincrasias da condição humana. 
No entanto, nem por isso deixamos de ter intuição, sensibilidade estética e moral, imaginação criativa, apreço pelo amor e pela beleza, música e poesia, reflexões e experiências metafísicas. Esses atributos nos levam a uma permanente tensão e contradição conosco mesmos, já que a experiência subjetiva não pode ser medida, objetivada, cientificamente tratada.  O que está por detrás de toda essa polaridade é o desencanto com um cosmos sem propósito. Levado a extremos, essa visão trata o próprio ser humano como um mero objeto resultante de forças materiais e causas eficientes, um peão sociobiológico, um gene egoísta, um artefato biotecnológico. 
Para tentar superar essa aparente contradição entre o mundo objetivo e a experiência de subjetividade, é preciso reabrir questões mais profundas sobre nossa própria natureza e o modo como compreendemos o mundo; é preciso questionar a visão de mundo prevalecente desde Copérnico. É preciso entender mais claramente qual o papel de nossa subjetividade na vastidão cósmica, como essa subjetividade participa na configuração do Universo tal como o percebemos. É preciso retornar ao ponto original da cisão entre cosmologia e psiqué. 
Mal consigo esperar o próximo capítulo... 


sábado, 7 de fevereiro de 2009

a hora de Noé


Com tantos furacões, inundações, tsunamis, terremotos, derretimento de calotas polares, elevação das marés; com a deterioração do sistema financeiro, que atingiu em cheio o coração da economia capitalista globalizada e ainda pode contaminar os sistemas de poder, com conseqüências imprevisíveis; com os buracos na magnetosfera, que deixam nossos sistemas de comunicação e transmissão elétrica vulneráveis a tempestades solares; com o ressurgimento da pirataria no golfo de Aden (em pleno século XXI !); com a fome, a miséria e as doenças ainda dizimando populações inteiras; com tudo isso, não teríamos chegado na hora de um novo Noé aparecer no mundo, disposto a resguardar a vida em meio a águas turbulentas, e assim atravessar essa fase de destruição que parece já ter começado? 

Falo em Noé no sentido figurado, porque ninguém imagina um velhinho barbudo carregando numa arca casais de todas as espécies para, depois da tempestade, voltarem a povoar a Terra, mesmo que alguns tenham levado essa história ao pé da letra e tenham de fato iniciado essa tarefa, como na construção do bunker com sementes da maior variedade possível de espécies vegetais, em Svalbard, Noruega, que se faz com o apoio do governo norueguês e do Bill Gates. Mas não falo disso. 

Falo em linguagem simbólica, falo de atitude, da escolha que podemos fazer entre protestar contra um gigante, como fez David, ou talvez preparar para liderar uma comunidade através da crise que se aproxima, já é visível e será forte e duradoura, como fez Noé. Falo de mirar o futuro e salvar o que for possível para retomar a vida, passada a tempestade. Para tal, será preciso optar pela criação de algo novo, ao invés de confrontar o antigo. Algo mais voltado para a "proposição" e menos para a "oposição". Quais seriam os princípios de Noé, se optássemos por seguir seus passos?

Menos problemas, mais soluções
Ao definir seu grupo, coalizão ou organização com a orientação de resolver um "problema", você estará minando seus esforços pela negatividade. Saber o que ou a quem somos contra não é suficiente na visão de Noé. Para salvar o planeta e seus habitantes, precisamos também saber o que somos a favor, e a isso direcionar nossas energias. 

Menos demandas, mais metas
Cada vez que formulamos nossos desejos como "demandas", assumimos uma relação de adversários do mundo à nossa volta: reconhecemos que não temos algo, e temos de lutar para obtê-lo. Nessa fase de transformação catastrófica, será que construir adversários ajuda? A alternativa é reformularmos nossas demandas em "metas". Metas podem ser compartilhadas, podem reunir apoios em torno de uma causa, e mesmo que divergências pontuais sejam inevitáveis, podem tornar mais fácil a tarefa de construir um futuro comum. 

Menos alvos, mais parcerias
O mundo é feito de grandes batalhas, mas para vencê-las é mais importante criar rede solidária de parcerias do que fixar-se na destruição do "alvo" inimigo. Se você entrar numa situação qualquer à procura de um inimigo, o encontrará facilmente. Nessa época pré-cataclismática, nosso desafio é encontrar e reunir nossos amigos, e isso é mais importante do que tentar derrubar os inimigos. Para enfrentar as mudanças em curso, precisamos voltar uns aos outros, mais do que uns contra os outros. 

Menos acusações, mais confissões
Muitos dos inimigos que precisamos destruir, senão todos, estão dentro de nós. Nós também somos parte do "problema". Tentamos mudar o status quo, mas é dele que seguimos tirando nosso sustento. No fim do dia, acabamos alimentando o próprio monstro contra o qual queremos lutar. Aqui, é preciso ter uma dose de humildade: reconhecer que não estamos apenas lutando contra o poluidor lá fora, mas também contra o poluidor dentro de nós. Todos temos pequenos demônios interiores que poluem nossas mentes e nossos corações, turvam nossos pensamentos e distorcem nossas ações. Seríamos mais fortes se reconhecêssemos e confessássemos nossas fraquezas, nossos medos, nossas necessidades. A sua experiência de luta interior, para realinhar sua vida a propósitos maiores e mudar seu próprio comportamento, ainda que seja pontilhada de pequenos fracassos e recorrentes fraquezas, como acontece na vida de todos nós, é o que vai criar a empatia e a cumplicidade com aqueles que se quer conectar e firmar laços mais fortes e perenes para a travessia conjunta. 

Menos discurso, mais entrega
Você não pode salvar um país ao qual você não sirva. Você não pode encampar uma causa em que você não acredite. Você não pode liderar alguém que você não ame. O amor pressupõe a entrega. Não estamos sempre certos, não somos donos da verdade, somos apenas buscadores, como todos os outros seres desse planeta azul. Não podemos convencer mais as mentes, precisamos achar meios de falar aos corações. E só conheço uma receita: ser verdadeiro, entregar-se, amar. 

Você já parou para pensar na companhia de quem você gostaria de embarcar na Arca de Noé? O que você deixaria para trás, o que seria realmente indispensável ter com você? Não falo no plano material (eu bem que gostaria de levar o meu iPod...) mas no nível simbólico, arquetípico, imaginário, qual seria a sua melhor companhia para atravessar mares turbulentos? 



domingo, 11 de janeiro de 2009

transformação

Você acredita que as mudanças no mundo estão acelerando-se, como se o próprio tempo passasse cada vez mais depressa? Tem essa sensação às vezes? Consegue perceber o que está mudando à sua volta?  

Na edição mais recente da revista Shift (1), há um artigo interessante e muito 
bem escrito, de autoria do psicólogo Edmund J. Bourne, sobre a aceleração das transformações em curso. O Dr. Bourne inicia com a idéia de que nossa civilização está diante de uma encruzilhada: não é viável prosseguirmos com nossas tendências de crescimento econômico e consumo material ilimitados. É como se a humanidade estivesse prestes a deixar a adolescência e dar-se conta de que precisa aprender a zelar pelos recursos do planeta. Pela necessidade de gerirmos a Terra de forma sustentável, a cooperação entre as nações terá de se impor e superará finalmente o conflito. Tais valores e inclinações já são hoje percebidos em cerca de 10 a 20 por cento da população mundial, mas só prevalecerão quando os desafios globais atingirem massa crítica. É por isso que os problemas que vemos hoje, derivados da mudança do clima, dos distúrbios ecológicos, da escassez de recursos (água, comida em algumas partes do globo) e da pobreza estão acelerando-se tanto: em breve, atingirão um ponto tal que irão forçar a necessidade de mudar drasticamente as prioridades de vida na nossa sociedade. 

No artigo, o Dr. Bourne apresenta uma lista de perspectivas que ajudam a acompanhar melhor o que está sendo alterado no paradigma da nossa consciência social: 
  • universo consciente: superação da visão mecanística do mundo, que passa a ser compreendido como um processo criativo, com atributos de auto-organização e intencionalidade, e ao qual nós estamos ligados de maneira integral; 
  • realidade multidimensional: passamos a reconhecer o real além dos limites do mundo físico, a existência de dimensões sutis que formam a matriz do universo físico que visualizamos;
  • interconexão: nossas mentes estão todas reunidas numa consciência coletiva. No nível mais profundo de nossas almas, nós somos todos um. 
  • complementaridade entre ciência e espiritualidade: ambos levam a uma compreensão do cosmos; a ciência, junto com as humanidades e as artes, aos aspectos subjetivos e simbólicos;
  • ética natural: o comportamento ético deriva da consciência interior, e não da moda ou dos padrões culturais;
A emergência desse novo paradigma de consciência afronta radicalmente a visão racional-materialista-consumista com a qual crescemos. A mudança é tão radical quanto a que o Renascimento trouxe à visão de mundo medieval. Retomamos uma imagem do cosmos que excede os limites da ciência objetiva. Essa transformação ensejará o surgimento de novos valores para a sociedade. Tais valores representarão o distanciamento da atual orientação materialista, rumo a uma orientação humanista-espiritual da vida. 

Quais serão esses novos valores? Que idéias representam melhor essa transformação? Não creio que se possa facilmente listá-los, nem esperar que alguém os apresente: elas emergirão na medida da evolução da consciência de cada um de nós. O que você acha? Isso é o mais importante.  

Referências:
Shifts - at the frontiers of consciousness. Revista trimestral publicada pelo Institute of Noetic Sciences (IONS). Edição nr. 21, dezembro/2008. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

responsabilidade ou culpa?

“Nenhum homem é uma ilha”, disse Teilhard de Chardin, mas em muitos aspectos parece que continuamos a agir como se fôssemos isolados, cercados cada um por uma bolha individual e indevassável, separados da coletividade, do meio ambiente, da economia, da política, do resto do planeta. 

Existe o Universo e existo eu.
O mundo está aí fora e eu aqui, no meu mundinho privado e separado, com as preocupações que considero só minhas, de mais ninguém. Nesse sentido, sinto-me único, peculiar, autônomo e distinto do resto. Quero soluções para a violência urbana, pois vejo-me na condição de vítima potencial desse flagelo moderno que acentua em mim o medo de sair à rua e limita minha capacidade de interagir com a sociedade e a natureza. Mas a violência está lá, é um dado externo e fora do meu controle, e aparentemente não há nada que eu possa fazer a respeito. Posso facilmente apontar “os culpados”: os políticos que pensam em se locupletar dos recursos públicos e não cuidam da saúde nem das instituições sociais; os traficantes, que invadem a periferia com seus produtos de lucro fácil, as drogas, e lançam desafio ao poder constituído; os filhinhos de papai, alienados e drogados, que financiam a manutenção desse complexo de drogas e violência; a polícia corrupta e mal-remunerada, leniente com a criminalidade; o sistema econômico, injusto e discriminatório, que exclui importante parcela da população dos benefícios da cidadania, lançando-os inevitavelmente ao mundo paralelo da droga, do crime e da violência; a falta de fé e esperança num futuro melhor; e muitos outros. 

Nessa lista, não tenho a capacidade de me incluir, de assumir parcela da responsabilidade pelo caos social, de que a violência nas ruas é um dos aspectos mais visíveis. 
Levo minha vida honestamente (com algumas mentirinhas bobas, de vez em quando, que não chegam a desmerecer minha imagem diante da sociedade), pago meus impostos (exceto quando a pouca fiscalização permite que eu burle alguma regrinha sem importância e reduza unilateralmente a carga fiscal que me é imposta – aliás excessiva e desmesurada), vou à igreja (certo, de vez em quando, numa missa de sétimo dia ou num casamento), faço caridade (sobretudo perto das festas de fim de ano, o que reduz minha culpa e permite saborear melhor a ceia de Natal), voto com consciência (não me pergunte se acompanho a atuação dos eleitos para me representar), enfim, vivo com a consciência limpa e mantenho atividade social e comunitária. E sofro com os flagelos do mundo, que existem e se agravam a cada dia, apesar de mim. 


"Eu, responsável pelo caos do mundo? Era só o que me faltava! Já basta a minha culpa judaico-cristã, que me faz sofrer em solidariedade às chagas e maldades da história, e que nem dez anos de psicanálise conseguiriam aliviar. E agora você quer que eu carregue o mundo nas costas? Assuma responsabilidade pelo caos que os outros, bandidos e picaretas de todo o gênero, criaram? Nem pensar! "


Este raciocínio resulta de um erro de perspectiva. Continuamos considerando que somos seres especiais, à parte, isolados do resto. Recusamo-nos a incluir a nós mesmos nos processos sociais e políticos “lá de fora”. É uma posição confortável, afinal é mais fácil apontar o dedo para os outros, colocar a culpa nos políticos, e seguir a minha vida como vítima dessa situação que não criei e pela qual não assumo qualquer responsabilidade. 


Numa perspectiva integrada, no entanto, é imperioso eliminar o véu do narcisismo que nos separa do resto. O resultado é a união a um processo maior, de evolução da consciência coletiva, que ocorre desde que o mundo é mundo, processo do qual não somos observadores nem analistas muito menos vítimas, mas partes integradas e solidárias, responsáveis mesmo pelos desdobramentos que afetam minha casa, meu bairro, minha cidade, minha nação, meu planeta. 


Associar-se conscientemente a esse processo coletivo de criação parece ser o desafio do novo milênio, o próximo passo natural na evolução da consciência que é a própria vida. Essa não é uma tarefa fácil nem evidente, mas é cada dia mais necessária. 

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

recriar o futuro

A cada instante, criamos o futuro. Somos hoje o resultado das escolhas que fizemos, individual e coletivamente, ao longo da história. Criamos uma sociedade avançada, complexa e interdependente. Recebemos a herança e o ônus de administrar as conquistas e as imperfeições de um futuro que foi projetado e criado pelos nossos antepassados e que é, hoje, a nossa realidade social, política, cultural, econômica, ambiental, moral e espiritual. Esse legado é um presente. É o nosso presente. Como vamos lidar com essa realidade? Que escolhas faremos hoje – e fazemos escolhas diariamente, tenhamos ou não consciência disso – para levar adiante a aventura da civilização? Qual a nossa relação com a tribo da humanidade, a nação onde nascemos, o grupo social a que pertencemos, a família em que crescemos? Quais nossos apegos aos objetos externos do desejo, tais como o dinheiro, o poder, o sexo? Qual é a imagem que temos de nós mesmos, como indivíduos conscientes e ativos na criação da nossa realidade? Quais as nossas escolhas nos relacionamentos com outros humanos? Como amamos, perdoamos, exercemos a compaixão?  De onde tiramos motivação para reiniciarmos a vida a cada manhã? Qual a lógica de nossas ações, palavras e pensamentos? Quais nossas inquietações com o mundo não-visível? Qual nossa relação com os assuntos da consciência e da espiritualidade? 


Este blog não pretende trazer respostas, mas compartilhar idéias que ajudem a busca individual e coletiva por caminhos que aprimorem nosso conhecimento a respeito dessas inquietações. Parece evidente que todas essas perguntas estão inter-relacionadas. A aldeia global em que vivemos, cada vez mais integrada e conectada, faz com que os problemas do mundo sejam cada vez mais associados e complexos. Questões do meio ambiente, como poluição das cidades, extinção de espécies ou mudança do clima, só para citar alguns exemplos, exigem a busca por respostas de modo abrangente, multidisciplinar, integrado. Por exemplo, não é mais possível dissociar a produção e venda de automóveis, que continua figurando como critério de pujança econômica na comparação entre países, dos efeitos ambientais causados pelo aumento correspondente na  liberação de partículas poluidoras nas ruas das nossas cidades, nem dos efeitos sociais causados pela retenção do trânsito e o conseqüente aumento no tempo diário de deslocamento das pessoas de suas casas ao trabalho e vice-versa. Qualquer questão que se queira analisar hoje requer uma perspectiva integrada, que considere os impactos e reflexos de cada decisão nos aspectos social, pessoal, psicológico,cultural, teleológico, moral e espiritual. 


Tenho a sensação de que precisamos reinventar o futuro, em torno de uma ética integral, holística, coletiva. Essa não é uma tarefa fácil, mas será que temos escolha?