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sábado, 25 de setembro de 2010

filosofia nos EUA

Participei hoje de um encontro com Jeff Carreira, em que ele fez uma palestra sobre "the nature of inquiry" (a natureza da inquirição). Foi tão bom que até resolvi voltar a escrever nesse blog, depois de tanto tempo, só para deixar registradas minhas percepções do que lá foi tratado.

Jeff dedica-se a identificar as raízes filosóficas da não-dualidade evolucionária entre pensadores norte-americanos. A não-dualidade evolucionária mereceria vários posts, mas por enquanto basta dizer que é a linha filosófica-espiritual liderada pelo guru pós-moderno Andrew Cohen, sobre quem já escrevi neste e em outros posts aqui no blog.

Segundo Jeff Carreira, as ideias de Cohen encontram amparo na filosofia norte-americana em Emerson, Charles Peirce, William James, John Dewey e Whitehead (este, embora britânico, teria tido seus anos acadêmicos mais produtivos depois que mudou para Harvard, já mais para o final de sua carreira).

Jeff Carreira recuperou as noções de "inquirição radical", de Peirce, de filosofia pragmática (James), da evolução da linguagem (Emerson) e das ideias como vórtices e fontes de mudança da realidade (Dewey). Essa base conceitual busca dar contexto filosófico à proposta de Andrew Cohen, que como sabemos teve forte influência das doutrinas hinduístas, tendo sido ele mesmo seguidor de um mestre Vedanta-Advaita por vários anos, até optar por seu próprio caminho. Ao enraizar o pensamento de Cohen na filosofia norte-americana, Carreira não somente oferece ao público do Novo Mundo um modelo filosófico próprio, autóctone, independente de raízes hindus, mas também recupera para esse mesmo público alguns valores filosóficos que estão na base da sociedade norte-americana, e de tão enraizados, são dados como naturais e inquestionáveis. Ninguém lembra, por exemplo, que o estilo pragmático e voltado a resultados, tão típico dessa sociedade, está respaldado no pragmatismo de William James, que apresenta o ser humano como mais um método de organização da realidade.

Mas o que mais me interessou foram as ideias de Charles Sanders Pierce. um filósofo revisionista radical, que levou a teoria da evolução darwiniana às últimas consequências, ao propor que a evolução não se limita às espécies, mas se estende à realidade como um todo. Ideias também estão em constante processo de evolução, o próprio tempo sequencial e o espaço 3D seriam resultado de um processo evolutivo. Definitivamente, terei que ler mais sobre esse pensador visionário.

Andrew Cohen se dedica a tentar explicar a natureza da consciência. Propõe que a condição humana é universal, e nossa ilusão de separatividade é produto de um processo evolutivo do Cosmos. A consciência, nesse contexto, não seria individual, o que quer que tenha consciência em cada um de nós seria a manifestação de uma única consciência universal, querendo expressar-se para realizar a si própria. Isso tudo por nosso intermédio.

Minha conclusão (parcial, subjetiva e provavelmente errada) é que os limites da nossa mente, pela lógica e pela razão, não permitem que tenhamos compreensão sobre a natureza da consciência, muito menos o seu propósito. A inquirição filosófica a que se dedica Jeff Carreira pode estar certa ou errada, isso nunca saberemos. Mas se estiver certa, e nós formos mesmo um meio para a expressão da consciência universal, isso muda radicalmente o modo de percebermos o mundo e nele atuarmos. Porque, se isso for verdade, não pode haver nada de mais importante na vida, do que colocarmo-nos à disposição do universo, assumirmos a humilde postura de sermos apenas instrumentos para a expressão de um propósito muito maior do que jamais teremos capacidade de perceber.

E isso, para mim, faz todo o sentido.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

relações e desejos

Nada pode ser mais desafiador na vida do que estabelecer relações com os outros. Quanto mais próxima a relação, maior o confronto com nossos próprios medos e vazios da personalidade. Mas que fazer? Afinal, não será essa a nossa principal fonte de ensinamento e talvez mesmo a razão da existência?

Muitos de nós, quando começamos um relacionamento, cometemos o erro essencial: tentamos barganhar. Algo como "eu te amo se você me amar de volta". E ficamos na expectativa de que o (a) parceiro (a) vai demonstrar, por suas ações e palavras, que corresponde ao que esperamos, que é sermos amados. Essa é a fórmula do desastre. Na nossa ânsia implacável pelo desejo de receber (prazer, atenção, amor, qualquer coisa menos indiferença), tornamo-nos vulneráveis às nossas próprias feridas e esquecemos que o mais importante, em qualquer relacionamento, não é o que vamos receber em troca, mas o que temos a oferecer, a dar, sem esperar retorno.

Amar não é um negócio. Casamento, sim; relacionamento, não. Mas é muito difícil deixarmos de lado a nossa expectativa de que, finalmente, encontramos alguém que vai suprir as nossas necessidades crônicas, algumas que carregamos desde a infância, ou quem sabe desde outras vidas, um ser-objeto que vai preencher nosso vazio existencial, vai fornecer-nos prazer ilimitado e infinito, eterna bonança, segurança e estabilidade na vida.

Em essência, essa postura revela uma característica de todos nós, seres humanos: somos buscadores irremediáveis do prazer a qualquer custo, tais como vasos a serem preenchidos com objetos do nosso desejo. Muitas vezes, achamos que vamos preencher nosso vaso comprando, comprando, consumindo. Outras vezes, comendo. Ou fumando, ou jogando, ou fazendo sexo. E todas as tentativas de preencher nosso vaso terminam sem nos trazer o resultado que desejamos. Compramos até endividarmo-nos sem limite, ou até o limite do cartão de crédito, só para depois vermos que 90 % do que adquirimos, no fundo passaríamos muito bem sem. Vimos uma torta de chocolate e desejamos comê-la inteira. Duas fatias depois, já nem mais podemos olhar para ela. Quem fuma, algo deve ver de muito atrativo no cigarro, até que percebe que o desejo não mais lhe satisfaz. Uns param (que bom!), outros partem para vícios mais pesados, sempre na eterna busca de satisfazer algo que nem sabem o que é. Com o jogo ou o sexo, não é diferente. Claro que o sexo pode ser maravilhoso, e é em certas condições, mas quando vira uma amarra, uma compulsão que visa unicamente satisfazer esse vazio cuja profundidade se desconhece, pode também escravizar, limitar, encapsular a vida.

Enquanto passamos por essas experiências de dar vazão ao desejo, de buscar a saciedade a qualquer custo, não raro encontramos alguém que nos desperta algo diferente, profundo, instigante. Queremos mais, passamos a orientar nossas antenas do desejo para a companhia, a atenção, o toque, o amor. É neste momento que tendemos a nos comportar como fazemos com todo objeto do desejo: buscamos a nossa saciedade, achamos que ele/ela está ali para nos satisfazer, tem essa obrigação, entramos no jogo da sedução com benefícios, da esperada troca de prazer que na verdade esconde a necessidade profunda de preencher aquele nosso vaso interior que não conseguimos encher nem com compras, nem com comida, nem com cigarro, nem com jogo, nem com sexo. É inevitável que isso leve ao fim da relação, às vezes antes mesmo de começar.

Passamos, então, a outra fase: a da vergonha. Sentimo-nos envergonhados do egoísmo que demonstramos, da falta de sensibilidade para como o(a) outro(a), quando percebemos que a relação afundou por causa do abismo de nossos desejos não satisfeitos. A vergonha nos faz tampar o vaso, fechar nosso coração, impedir que qualquer novo desejo por relações se manifeste. Temos vergonha de só querer receber, mas já é tarde, não há como voltar. Ou nos fechamos de vez, ou voltamos aos desejos mais materiais: compras, comida, sexo sem compromisso.

Uma relação evoluída, iluminada, com chances de durar, requer dos(as) parceiros(as) rever essa lógica perversa de tratar o outro como o objeto do desejo. Exige que tomemos consciência de que amamos não como meio de buscar a própria satisfação egoísta, mas sim como ato de entrega, de crença na vida, de lance sem retorno, de partida sem olhar para trás. Tornamo-nos, assim, vasos que refletem o desejo mútuo de dar prazer, e ao adotar essa perspectiva de entrega total, descobrimos que amamos não para nós, mas para o outro. Continuamos, sim, nutrindo as necessidades dele/dela, porque é daí que passamos a tirar o nosso prazer, e esse abraço pelo doar-se impulsiona uma espiral ascendente e iluminada pela nossa nova postura diante da vida, inspirada no desejo de dar e não no de receber a qualquer custo.

Este é, como disse no início desse texto, o maior desafio da vida. Mas quem disse que seria fácil? A alternativa é continuarmos imersos no torpor do consumismo, da gula, da luxúria ou da jogatina. Não quero que me entendam mal, não há juízo de valor quanto à opção por qualquer dessas coisas. O melhor da história é que somos livres para optar. Mas o nosso desafio continua sendo transformar o que nos move, partir de um desejo material e narcisista, até chegarmos a um desejo de profunda conexão com o que de mais puro e elevado pode haver na existência, que é o desejo de amar de verdade, sem condições nem barganhas.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

a civilização e seus descontentes


A Coréia do Norte acaba de realizar uma explosão atômica. O Irã recém testou míssil de longo alcance e declara que não abrirá mão do seu programa nuclear. Somália e Guiné-Bissau perderam suas estruturas de Estado e estão à mercê de saqueadores, piratas e traficantes.  O Paquistão precisa usar o exército contra seu próprio povo, para conter aquela parcela que viu no radicalismo talibã a única salvação. Bento XVI mantém a igreja na condenação do controle da natalidade, da homossexualidade, do aborto, das pesquisas com células-tronco. A crise econômica fez baixar névoa densa no horizonte da globalização. O México perde mais de 8 % do PIB, sem contar ainda os efeitos da gripe suína (oops, da gripe A h1n1). Fora os otimistas de plantão, ninguém é capaz de prever o fim da crise nem o quanto ela afetará a distribuição de poder e riqueza no mundo. A ciência concentra atenção na mudança do clima e busca respaldo político para empurrar tecnologias verdes e energias renováveis. As novas visões do espaço, obtidas de sondas, satélites e telescópios superpotentes, lançam mais incertezas sobre o que pensávamos conhecer do Universo. 

Este poderia ser um breve retrato da aventura civilizatória hoje. O mundo está mais inseguro, mais violento, mais incerto, mais à deriva do que jamais esteve. E, no entanto, nunca vivemos tanto nem tão bem, nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, ao consumo, ao prazer. Nunca nosso leque de opções foi tão amplo, ao ponto de podermos escolher se frequentamos missas ou orgias, raves ou almoços de família, shoppings ou caminhadas ecológicas, museus ou montanhas-russas, escolas ou lan houses, ou ambas, ou todas as opções e muitas outras, cada qual à sua hora. 

Mas estamos contentes? Era esse o almejado produto da civilização? Foi para isso que se sacrificaram vidas, que se eliminaram povos, que se massacraram inocentes, que se encarceraram irmãos? Tudo para que tivéssemos o gostinho de sabermo-nos livres - ainda que poucos dentre nós pudéssemos traduzir essa liberdade em ação? Por que a grande maioria das pessoas infelizes, depressivas, solitárias e mal-humoradas são justamente as que vivem nos países mais avançados? O que ainda falta para nos contentar? Quem se pode dizer, hoje em dia, plenamente realizado? 

Tudo leva a crer que estamos numa encruzilhada civilizatória e que uma escolha coletiva terá de ser feita, brevemente, sobre o rumo da humanidade, uma dessas que encerram eras e refundam estruturas. O problema é que se não tivermos consciência de nossas opções e não soubermos fazer as escolhas corretas, o processo de mudança será doloroso.  As turbulências que vemos no mundo - políticas, econômicas, éticas, morais, psicológicas - podem ser vistas como sinais de que essa mudança está perto - ou já terá começado, e nem percebemos porque quem está no meio da tempestade não consegue ver o tamanho do furacão. 

Com dor ou sem dor, o certo é que mudamos, e mudamos rapidamente, numa avalanche de fatos e situações que nos deixam sem chão, sem referências, sem norte. A menos que tenhamos a habilidade de adotar a postura correta: que possamos, individual e coletivamente, assumir visão integral da nossa existência, e que preparemos, assim, o parto de uma  nova consciência civilizatória, fundada em valores evoluídos e iluminados, frutos de percepção revisada do que significa estarmos vivos, estarmos aqui, habitarmos esse planeta e sermos parte do Universo. A todos os descontentes da civilização, essa parece ser uma reflexão necessária e inadiável. 


domingo, 17 de maio de 2009

gripe suína

A pandemia de gripe suína está servindo para revelar, pela via do sofrimento, que estamos mais conectados, em escala global, do que podíamos supor. A imprensa parou de dar tanto destaque ao assunto, mas a infecção continua a se alastrar, mais rápido do que os agentes de saúde são capazes de detectar novos casos, limitados à capacidade dos laboratórios de processar os exames para identificar o vírus. E a chegada do inverno no hemisfério sul traz o risco de um grande aumento no surto dessa doença, contra a qual não há resistência natural. 

Mas existe uma doença que é bem pior do que esta. Já tomou conta da humanidade toda e, para vencê-la, será necessário mais do que uma nova vacina. É doença  da indiferença, causada pelo vírus do egoísmo, propagada pela ilusão da separatividade. 

Estamos todos cada vez mais próximos, pelas comunicações, pela Internet, pelos transportes. Ao mesmo tempo, nunca estivemos tão distantes, cada um de nós encolhido na sua crisálida, com medo de um mundo que parece tão cruel, violento e assustador. 

Escolhemos não mais olhar para o sofrimento alheio, criamos filtros para vermos só o que interessa aos nossos propósitos egoístas e seguimos buscando a satisfação, a qualquer preço, de nosso próprio desejo de receber prazer. O resto que se dane. 

Às vezes, temos uma incômoda sensação de que essa nossa postura egoísta possa contribuir para os males do mundo, para a existência da fome, da miséria, da violência. Mas logo fechamos os olhos a essa possibilidade, porque "olhar para o monstro" não é uma atitude fácil, requer coragem e discernimento, então é preferível continuar culpando os políticos e os marginais e olhar para o "sistema" com a indiferença de quem dele não participa, por ele não é responsável, não está nem aí. 

E foi justamente essa indiferença que contaminou o mundo, alastrou-se em pandemia por todos os continentes, continua a manter-nos separados por uma barreira tão sólida quanto os muros de nossas casas, que nos dão alguma ilusão de segurança, ilusão essa com a qual preferimos continuar nos enganando. 
 
Se um dia superarmos o vírus do egoísmo, veremos que a mesma vida que surge e se manifesta em mim também existe em você e em todas as criaturas vivas. Talvez então possamos compreender que nada mais somos do que partes de um processo maior, de uma consciência universal e infinita, que se desdobra em constante processo evolutivo, do qual somos apenas um aspecto, tão importante quanto qualquer outro ser em que o mistério da vida se manifesta. 

Se quisermos adquirir essa nova consciência, precisaremos, em algum momento, deixar de nos vermos separados, isolados, com medo uns dos outros, reativos e reticentes à mera ameaça que possa questionar nossa instável ilusão de equilíbrio e conforto. Talvez nesse momento surja em nós um desejo de doar, que seja maior do que o de receber, que nos faça agir em função do que nós podemos oferecer ao mundo, mais do que dele extrair, que substitua em nossa psiqué o egoísmo pelo altruísmo, o desejo de separação pelo desejo de comunhão, a indiferença pela solidariedade. 

Quem sabe, então, possamos curar a Terra de todos os males. 

sexta-feira, 8 de maio de 2009

eixos



Em ordem de magnitude, ainda não chegamos no limite do menor nem do maior, se é que esse limite existe. Tome um átomo, por exemplo. Já se sabe que o interior do átomo é um grande vazio, e mesmo assim ele tem diversas partículas ainda menores (cerca de 16 comprovadas até agora). Prótons, nêutros e elétrons são as mais conhecidas. Enquanto prótons e nêutrons se aglomeram no núcleo do átomo, os elétrons desenvolvem órbita ao redor desse núcleo, o que faz supor a existência de um eixo central no átomo, em torno do qual eles todos se orientam. O eixo não é visível, não é outra partícula, nem alguma força subatômica que impede os elétrons de abandonarem livremente os núcleos atômicos. Mas o eixo pode ser imaginado e matematicamente deduzido. Na verdade, sem um eixo de referência, fica difícil conceber a estrutura atômica.

Um elétron, por sua vez, tem eixo próprio, que o faz girar em torno de si mesmo, tal qual a Terra e os planetas obedecem ao movimento de rotação. Ou as estrelas, como o nosso sol, que além de expandir-se em ondas de luz e calor, também giram em torno de si próprias. Recentemente, descobriu-se que a galáxia também tem um eixo em seu centro, no qual se comprovou haver um buraco negro, fonte de atração gravitacional que impede que sistemas solares como o nosso saiam à deriva pelo imenso e vazio universo.

Uma árvore tem um eixo, sobe desde o centro da Terra em direção ao espaço infinito, e sua estrutura orgânica se desenvolve em torno dessa linha imaginária que perpassa o seu centro de gravidade. Se observarmos bem, todo ser vivo tem um ou mais eixos que descrevem simetrias, reflexos e campos de energia. 

No plano simbólico, também temos cada um de nós um eixo, em torno do qual desenvolvemos nossa própria concepção da existência. O desenvolvimento da percepção, da linguagem, da consciência individual segue um vórtice espiral ascendente, que se expande em torno desse eixo invisível, no mais das vezes inconsciente, porém absolutamente imprescindível para a agregação dos átomos e moléculas em tecidos e órgãos que de forma harmônica se reúnem nessa sinfonia em constante recriação, e que nos dá o mistério da vida.

Poderíamos facilmente supor a existência de um único eixo, reproduzido em múltiplas dimensões da realidade e do pensamento, mas sujeito a uma só lei, que no plano físico se manifesta nas forças de atração gravitacional e de expansão universal. Poderíamos também supor que, no plano simbólico, o eixo da vida seria a referência tanto para a força centrífuga de expansão da consciência quanto para a força centrípeta que nos mantém com os pés no chão, fixos na realidade do tempo-espaço que agrega, reduz, realiza toda a experiência humana. 

Não será, enfim, toda a realidade, ou a árvore da vida, nada mais do que um eixo que tudo agrega, do microscópico ao intergaláctico? E nossa missão de vida, não será ela sintonizar, seja por intuição seja por vontade, com o eixo que em tudo se manifesta, e cujo destino seja realizar a si mesmo, também por nosso intermédio?

Você já parou para pensar qual é o eixo da sua existência? Qual a linha que, independente das intempéries e vicissitudes do mundo, descreve o caminho de onde você vem e para onde vai, sem limites de tempo nem espaço? Será que seu eixo está em sintonia com o eixo do planeta? do sol? da galáxia? Os átomos que compõem o seu organismo vibram também nessa mesma sintona? Sua mente é capaz de parar uns segundos e permitir que você se refugie, pelo menos por alguns instantes, na solidez, na imutabilidade, na verdade absoluta do eixo da sua vida?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

como transcender a pós-modernidade?

Acabo de voltar de um retiro de fim de semana em Lenox, Massachusetts, com Andrew Cohen (foto), o guru americano da pós-pós-modernidade. Foi uma experiência fascinante, ainda tenho que digerir tantos conceitos revolucionários de quem está engajado em criar a consciência para uma nova era, que transcenda a pós-modernidade, esse período caracterizado pelo narcisismo, nihilismo, exacerbação do ego e separatividade. A visão de Andrew é fascinante, descreve o processo evolutivo da consciência como parte de um processo maior, cósmico, infinito, um impulso evolutivo primordial que se desenrola desde o Big Bang e prossegue no ato de criar a si mesmo por intermédio das nossas próprias consciências individuais. Seu ensinamento nos reposiciona diante do cosmos. Retira-nos do centro, porém mantém nossa importância essencial a todo o processo, porque o caminho da evolução se daria pela emergência de uma consciência coletiva, transpessoal, da qual somos veículos, e pela qual temos total responsabilidade. 
Registrei minhas impressões em outro blog, para iniciados e interessados em assuntos de consciência e evolução. Quem tiver interesse, pode ler na íntegra em para crescermos juntos

sábado, 14 de março de 2009

como tornar-se um iluminado nos dias de hoje?

O projeto EnlightenNext, que edita revista com o mesmo nome, lançou neste ano, nos Estados Unidos, a iniciativa chamada "O Ciclo do Descobrimento" (Discovery Cicle). Os participantes do projeto, chamados "evolucionários", reconhecem que tudo o que existe se manifesta ao mesmo tempo num plano interno e noutro externo. O plano interno seria a consciência, e incluiria as idéias e valores que temos da realidade, tanto individual quanto coletivamente. O plano externo seria a cultura, e consistiria no modo pelo qual nos comportamos em relação a nós mesmos e em relação aos outros, e também as estruturas físicas e sociais que criamos para organizar a atividade humana.

Segundo essa visão, a evolução do ser humano ocorre simultaneamente nesses dois níveis. As pessoas têm a capacidade de, por meio de seu próprio esforço, individual e coletivamente, promover a evolução tanto no nível interior (consciência) quanto exterior (cultura), ou em ambos, em busca da iluminação.

Este é um resumo muito simplificado de uma corrente de pensamento inovadora, que busca a integralidade e a realização na vida, sem necessariamente demandar o afastamento da realidade, a renúncia às atividades mundanas. Pelo contrário, é a experiência humana, na sociedade, na família, no trabalho, que forma a base para o engajamento daqueles que pretendem promover a evolução das relações entre as pessoas, com o meio ambiente, e também internamente, para aqueles que estão à procura de uma compreensão mais espiritual para o sentido da existência. Tudo está relacionado à consciência, que por nosso intermédio se manifesta, torna-se una, realizar a si própria por meio da experiência da vida.

O Ciclo do Descobrimento consistirá de uma sequência de eventos em 2009 e 2010 que visam a gerar momento para que a humanidade atinja condições de avançar para o próximo nível da evolução, no processo duplo e continuo de realização do ser e do tornar-se (being and becoming). Este ciclo prevê três semanas de retiro com Andrew Cohen na Toscana, Itália, em julho de 2009, e uma Conferência Mundial em Londres, em 2010. O retiro terá por objetivo o trabalho interior de preparação da consciência para essa espiral evolutiva. A Conferência seria o aspecto externo, cultural, da consciência aplicada às diversas manifestações sociais e experiências humanas.

Quem se interessar e quiser saber mais pode acessar o site http://www.enlightennext.org/ (em inglês).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

ego

No texto que publiquei no solstício de inverno (do hemisfério norte), chamado Mordor, recebi alguns comentários sobre as referências que fiz ao ego e à necessidade de que ele seja aniquilado, como condição para o surgimento de consciência mais alinhada com nossos verdadeiros propósitos de vida, da mesma forma que Frodo teve de empreender a jornada heróica e sofrida para retornar o anel à lava vulcânica de onde havia sido feito, para lá derretê-lo.

Recebi alguns comentários em defesa do ego e achei que valeria a pena retomar essa noção. Achei noutro blog (The Cleaver) o seguinte trecho (tradução minha), que bem ilustra o que tento transmitir:

"Como se vestisse o quepe branco do capitão, o ego toma o timão, mesmo que ele não tenha a experiência suficiente para navegar. O verdadeiro trabalho do ego é cuidar dos impulsos de sobrevivência, tais como comer, beber, reproduzir, reunir-se em tribos, lutar ou fugir. Ele não está equipado para comandar uma nave grande e complexa. Consequentemente, faz uma série de erros, perde-se, avança sobre águas turbulentas e colide com outros egos. Com frequência, infringe dano em si mesmo e nos outros. Do mesmo modo, buscando justificar-se entre uma teoria ou outra, o ego só consegue alcançar resultados medíocres, se comparados com o comando magnífico e brilhante do self superior. Precisamos necessariamente convencer o ego a tomar o assento traseiro.
(...)
Ser quem você é não é nenhum vago sentimento da Nova Era. É uma disciplina rigorosa de trabalho pessoal para adquirir a consciência do presente. É uma trajetória espiritual natural. Ao trazermos nossa atenção ao momento presente, desconectamos os mecanismos egóicos da mente e a liberamos do fluxo da temporalidade. Saímos do loop do tempo (a terceira dimensão); a mente se torna imediatamente mais profunda e conectada (com a quarta dimensão). Esta é a jornada heróica do verdadeiro ser. Isso é filosofia, psicologia, espiritualidade, ciência e arte. É a realidade viva de observar nosso Dharma, nosso sagrado caminho pessoal, dia a dia, todos os dias.

Pensar e fazer são periféricos. Ser é tudo. Ser é agora. Isto é sabedoria antiga, profunda e autêntica. É o conhecimento que mais uma vez brota à superfície em milhares de mentes, retirando-as pouco a pouco da grande e recorrente amnésia da humanidade."

Não se trata, de fato de aniquilar o ego, mas de retirá-lo do comando, de compreender que existe uma força condutora nesse cosmos que é superior à nossa compreensão e que dela somos partes inseparáveis. Trata-se de deixar de lado a tola idéia de querer controlar tudo, dominar a natureza, saber-se senhor do universo. Não quero com isso desmerecer os avanços científicos que a humanidade logrou ao longo dos milênios. A mente racional, lógica, cartesiana, foi essencial para, desde o Iluminismo, alçar-nos ao patamar de consciência de que desfrutamos hoje. Parece-me, no entanto, que nossa evolução não para aqui e que o novo e significativo passo da humanidade dependerá menos do empirismo da ciência e mais da mudança de atitude e consciência interna a respeito dos fatos da vida. Essa é a mudança mais revolucionária que podemos almejar: a da nossa consciência. Se não formos capazes de ascender a um novo patamar de compreensão de nós mesmos e do nosso propósito aqui na Terra, se continuarmos a agir como consumidores hipnotizados pelos encantos materiais, se fecharmos os olhos às mudanças que se aceleram à nossa volta, como teremos condições de evitar a destruição total e o caos?

Bem, talvez
seja o caos parte indispensável da nossa aprendizagem, quem sabe? A malha da civilização está tensa, parece rumar para um ponto-limite, o ponto sem retorno, se é que já não tenhamos passado dele. O reordenamento da vida em torno de novos valores não se fará sem um período de caos e destruição. O apego ao ego, assim como às coisas materiais, só aumentará nosso sofrimento. Por isso, parece ter chegado a hora de empurrarmos o ego para o banco traseiro e entregarmos o controle da nave da nossa existência para o self superior, o self autêntico, o eu verdadeiro, ou como quer que o chamemos.


domingo, 11 de janeiro de 2009

transformação

Você acredita que as mudanças no mundo estão acelerando-se, como se o próprio tempo passasse cada vez mais depressa? Tem essa sensação às vezes? Consegue perceber o que está mudando à sua volta?  

Na edição mais recente da revista Shift (1), há um artigo interessante e muito 
bem escrito, de autoria do psicólogo Edmund J. Bourne, sobre a aceleração das transformações em curso. O Dr. Bourne inicia com a idéia de que nossa civilização está diante de uma encruzilhada: não é viável prosseguirmos com nossas tendências de crescimento econômico e consumo material ilimitados. É como se a humanidade estivesse prestes a deixar a adolescência e dar-se conta de que precisa aprender a zelar pelos recursos do planeta. Pela necessidade de gerirmos a Terra de forma sustentável, a cooperação entre as nações terá de se impor e superará finalmente o conflito. Tais valores e inclinações já são hoje percebidos em cerca de 10 a 20 por cento da população mundial, mas só prevalecerão quando os desafios globais atingirem massa crítica. É por isso que os problemas que vemos hoje, derivados da mudança do clima, dos distúrbios ecológicos, da escassez de recursos (água, comida em algumas partes do globo) e da pobreza estão acelerando-se tanto: em breve, atingirão um ponto tal que irão forçar a necessidade de mudar drasticamente as prioridades de vida na nossa sociedade. 

No artigo, o Dr. Bourne apresenta uma lista de perspectivas que ajudam a acompanhar melhor o que está sendo alterado no paradigma da nossa consciência social: 
  • universo consciente: superação da visão mecanística do mundo, que passa a ser compreendido como um processo criativo, com atributos de auto-organização e intencionalidade, e ao qual nós estamos ligados de maneira integral; 
  • realidade multidimensional: passamos a reconhecer o real além dos limites do mundo físico, a existência de dimensões sutis que formam a matriz do universo físico que visualizamos;
  • interconexão: nossas mentes estão todas reunidas numa consciência coletiva. No nível mais profundo de nossas almas, nós somos todos um. 
  • complementaridade entre ciência e espiritualidade: ambos levam a uma compreensão do cosmos; a ciência, junto com as humanidades e as artes, aos aspectos subjetivos e simbólicos;
  • ética natural: o comportamento ético deriva da consciência interior, e não da moda ou dos padrões culturais;
A emergência desse novo paradigma de consciência afronta radicalmente a visão racional-materialista-consumista com a qual crescemos. A mudança é tão radical quanto a que o Renascimento trouxe à visão de mundo medieval. Retomamos uma imagem do cosmos que excede os limites da ciência objetiva. Essa transformação ensejará o surgimento de novos valores para a sociedade. Tais valores representarão o distanciamento da atual orientação materialista, rumo a uma orientação humanista-espiritual da vida. 

Quais serão esses novos valores? Que idéias representam melhor essa transformação? Não creio que se possa facilmente listá-los, nem esperar que alguém os apresente: elas emergirão na medida da evolução da consciência de cada um de nós. O que você acha? Isso é o mais importante.  

Referências:
Shifts - at the frontiers of consciousness. Revista trimestral publicada pelo Institute of Noetic Sciences (IONS). Edição nr. 21, dezembro/2008. 

domingo, 21 de dezembro de 2008

Mordor

"Viva em Mordor por muito tempo e você vai acabar parecido com Gollum" (1).

Acabo de ver a trilogia do Senhor dos Anéis e, como não resisto, tenho de fazer minha releitura da história-fantasia de Tolkien. Então, em leitura aleatória de posts de blogs (cheguei à conclusão que para ser um bom blogueiro, é preciso antes de mais nada ler e comentar blogs alheios, e há muita riqueza de idéias na blogosfera), me deparei com a frase acima (tradução minha). Esta frase me chamou a atenção, porque o autor tenta ilustrar o cuidado que se deve ter em não se envolver demais em coisas mundanas, sobretudo nessa nossa época de total crise de valores e de confiança. Seu objetivo não era comentar o Senhor dos Anéis, mas apresentar uma alternativa ao indivíduo que trilha o caminho da consciência sobre qual atitude adotar ao perceber que todo o sistema político, econômico, financeiro, social que nos rodeia é corrupto e mantido por uma enorme população de "adormecidos", pessoas como nós, que inconscientemente repetimos padrões de comportamentos que só servem à manutenção do próprio sistema e dos que mais ganham com ele.

Sugere o autor do blog que a evolução da consciência é um caminho a ser trilhado sozinho: não adianta dedicar esforços para tentar despertar os outros, quando ainda não lhes chegou o momento de perceber as amarras que os mantêm prisioneiros da Matriz que se alimenta da sua vitalidade e trabalho da mesma forma que vampiros do sangue de suas vítimas. Eventualmente, mais e mais pessoas despertarão para o lado "bom" da Força ...

Qual, então, a melhor postura? Como retirar poder de um sistema corrompido? Como ajudar a despertar o povo da ignorância? Como acelerar o surgimento de uma ordem mais justa e fraterna, baseada em escolhas conscientes e não dominadas pelas imposições do mercado, da política, da mídia, das religiões? Parece que não há outra postura a adotar a não ser voltar-se para si, fortalecer o poder interior, de modo a que cada indivíduo, a seu tempo, deixe de alimentar o poder externo, dominante. E para despertar os outros, é primeiro preciso despertar a si próprio e cultivar estado de consciência que ponha à mostra as amarras da existência.

Antes de mais nada, quer-me parecer que precisamos desenvolver nossa capacidade de atenção, na linha do "estar aqui e agora", "viver no presente", como escrito nas doutrinas mais antigas, secretas ou abertas, e renovado por autores recentes como Eckhart Tolle, Deepak Chopra, Andrew Cohen e outros. À atenção, adicionamos a intenção, como manifestação consciente do desejo de ser, em vez de fazer ou ter. Com atenção e intenção, podemos almejar a integralidade de nossas ações e pensamentos. Ser integral parece ser, para mim, o desafio ético do novo milênio. Creio haver fortes indícios de que a integralidade é condição para o próximo estágio da consciência humana, no qual estaremos muito mais habilitados a usar nossa intuição, em vez de nossa mente, como ferramenta de libertação do poder externo, sendo essa nossa verdadeira missão de vida.

Ia escrever sobre minha interpretação do Senhor dos Anéis, mas como isso é um blog, e num blog prefiro adotar estilo livre, espontâneo, acabei divagando. Mas deixo aqui o registro de que a trilogia adquiriu, para mim, outro significado, quando identifiquei o anel como simbolizando o ego, causa de todos os nossos males, que tenta nos dominar, atraindo-nos com a promessa de poder, na verdade falso poder, e nos mantém prisioneiros da nossa própria ignorância.
O ego precisa ser destruído como Frodo destruiu o anel, jogando-o na lava vulcânica, ao final de uma odisséia pessoal de enfrentamento dos próprios medos e expansão dos limites com vistas à libertação definitiva. Nessa perspectiva, até que o Senhor dos Anéis não está tão distante dos comentários sobre nossas amarras ao sistema corrupto e vil que nos cerca. Acordemos, pois!


Referências:
(1) Neil Kramer, "The Way of the Infinite Explorer" , blog The Cleaver (14/dez/2008).
(2) Imagem: Gollum, personagem do Senhor dos Anéis (site de origem da imagem).
(3) Imagem: Anel na lava vulcânica (site de origem da imagem).

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

responsabilidade ou culpa?

“Nenhum homem é uma ilha”, disse Teilhard de Chardin, mas em muitos aspectos parece que continuamos a agir como se fôssemos isolados, cercados cada um por uma bolha individual e indevassável, separados da coletividade, do meio ambiente, da economia, da política, do resto do planeta. 

Existe o Universo e existo eu.
O mundo está aí fora e eu aqui, no meu mundinho privado e separado, com as preocupações que considero só minhas, de mais ninguém. Nesse sentido, sinto-me único, peculiar, autônomo e distinto do resto. Quero soluções para a violência urbana, pois vejo-me na condição de vítima potencial desse flagelo moderno que acentua em mim o medo de sair à rua e limita minha capacidade de interagir com a sociedade e a natureza. Mas a violência está lá, é um dado externo e fora do meu controle, e aparentemente não há nada que eu possa fazer a respeito. Posso facilmente apontar “os culpados”: os políticos que pensam em se locupletar dos recursos públicos e não cuidam da saúde nem das instituições sociais; os traficantes, que invadem a periferia com seus produtos de lucro fácil, as drogas, e lançam desafio ao poder constituído; os filhinhos de papai, alienados e drogados, que financiam a manutenção desse complexo de drogas e violência; a polícia corrupta e mal-remunerada, leniente com a criminalidade; o sistema econômico, injusto e discriminatório, que exclui importante parcela da população dos benefícios da cidadania, lançando-os inevitavelmente ao mundo paralelo da droga, do crime e da violência; a falta de fé e esperança num futuro melhor; e muitos outros. 

Nessa lista, não tenho a capacidade de me incluir, de assumir parcela da responsabilidade pelo caos social, de que a violência nas ruas é um dos aspectos mais visíveis. 
Levo minha vida honestamente (com algumas mentirinhas bobas, de vez em quando, que não chegam a desmerecer minha imagem diante da sociedade), pago meus impostos (exceto quando a pouca fiscalização permite que eu burle alguma regrinha sem importância e reduza unilateralmente a carga fiscal que me é imposta – aliás excessiva e desmesurada), vou à igreja (certo, de vez em quando, numa missa de sétimo dia ou num casamento), faço caridade (sobretudo perto das festas de fim de ano, o que reduz minha culpa e permite saborear melhor a ceia de Natal), voto com consciência (não me pergunte se acompanho a atuação dos eleitos para me representar), enfim, vivo com a consciência limpa e mantenho atividade social e comunitária. E sofro com os flagelos do mundo, que existem e se agravam a cada dia, apesar de mim. 


"Eu, responsável pelo caos do mundo? Era só o que me faltava! Já basta a minha culpa judaico-cristã, que me faz sofrer em solidariedade às chagas e maldades da história, e que nem dez anos de psicanálise conseguiriam aliviar. E agora você quer que eu carregue o mundo nas costas? Assuma responsabilidade pelo caos que os outros, bandidos e picaretas de todo o gênero, criaram? Nem pensar! "


Este raciocínio resulta de um erro de perspectiva. Continuamos considerando que somos seres especiais, à parte, isolados do resto. Recusamo-nos a incluir a nós mesmos nos processos sociais e políticos “lá de fora”. É uma posição confortável, afinal é mais fácil apontar o dedo para os outros, colocar a culpa nos políticos, e seguir a minha vida como vítima dessa situação que não criei e pela qual não assumo qualquer responsabilidade. 


Numa perspectiva integrada, no entanto, é imperioso eliminar o véu do narcisismo que nos separa do resto. O resultado é a união a um processo maior, de evolução da consciência coletiva, que ocorre desde que o mundo é mundo, processo do qual não somos observadores nem analistas muito menos vítimas, mas partes integradas e solidárias, responsáveis mesmo pelos desdobramentos que afetam minha casa, meu bairro, minha cidade, minha nação, meu planeta. 


Associar-se conscientemente a esse processo coletivo de criação parece ser o desafio do novo milênio, o próximo passo natural na evolução da consciência que é a própria vida. Essa não é uma tarefa fácil nem evidente, mas é cada dia mais necessária. 

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

recriar o futuro

A cada instante, criamos o futuro. Somos hoje o resultado das escolhas que fizemos, individual e coletivamente, ao longo da história. Criamos uma sociedade avançada, complexa e interdependente. Recebemos a herança e o ônus de administrar as conquistas e as imperfeições de um futuro que foi projetado e criado pelos nossos antepassados e que é, hoje, a nossa realidade social, política, cultural, econômica, ambiental, moral e espiritual. Esse legado é um presente. É o nosso presente. Como vamos lidar com essa realidade? Que escolhas faremos hoje – e fazemos escolhas diariamente, tenhamos ou não consciência disso – para levar adiante a aventura da civilização? Qual a nossa relação com a tribo da humanidade, a nação onde nascemos, o grupo social a que pertencemos, a família em que crescemos? Quais nossos apegos aos objetos externos do desejo, tais como o dinheiro, o poder, o sexo? Qual é a imagem que temos de nós mesmos, como indivíduos conscientes e ativos na criação da nossa realidade? Quais as nossas escolhas nos relacionamentos com outros humanos? Como amamos, perdoamos, exercemos a compaixão?  De onde tiramos motivação para reiniciarmos a vida a cada manhã? Qual a lógica de nossas ações, palavras e pensamentos? Quais nossas inquietações com o mundo não-visível? Qual nossa relação com os assuntos da consciência e da espiritualidade? 


Este blog não pretende trazer respostas, mas compartilhar idéias que ajudem a busca individual e coletiva por caminhos que aprimorem nosso conhecimento a respeito dessas inquietações. Parece evidente que todas essas perguntas estão inter-relacionadas. A aldeia global em que vivemos, cada vez mais integrada e conectada, faz com que os problemas do mundo sejam cada vez mais associados e complexos. Questões do meio ambiente, como poluição das cidades, extinção de espécies ou mudança do clima, só para citar alguns exemplos, exigem a busca por respostas de modo abrangente, multidisciplinar, integrado. Por exemplo, não é mais possível dissociar a produção e venda de automóveis, que continua figurando como critério de pujança econômica na comparação entre países, dos efeitos ambientais causados pelo aumento correspondente na  liberação de partículas poluidoras nas ruas das nossas cidades, nem dos efeitos sociais causados pela retenção do trânsito e o conseqüente aumento no tempo diário de deslocamento das pessoas de suas casas ao trabalho e vice-versa. Qualquer questão que se queira analisar hoje requer uma perspectiva integrada, que considere os impactos e reflexos de cada decisão nos aspectos social, pessoal, psicológico,cultural, teleológico, moral e espiritual. 


Tenho a sensação de que precisamos reinventar o futuro, em torno de uma ética integral, holística, coletiva. Essa não é uma tarefa fácil, mas será que temos escolha? 


quarta-feira, 22 de outubro de 2008

medo


Em tempos de incerteza, o medo passa a reger as decisões individuais e sociais. Medo de perder dinheiro, medo de sofrer agressão, medo de perder o emprego, medo de ficar doente, medo de ficar só. O predomínio do medo no nosso dia a dia nos leva à segregação e ao conflito. Essa tendência se verifica desde o ambiente familiar até as relações entre países.

O medo resulta do apego, e todo apego é externo ao ser. Só é possível apegar-se àquilo que não consideramos partes essenciais de nós mesmos. Apegamo-nos ao dinheiro, a outras pessoas, ao poder, ao vício. Aliás, o vício, qualquer que seja, nada mais é do que um apego exacerbado, que gera padrão de comportamento repetitivo e inconsciente.

Será que aquela tendência a darmos menos valor ao que é nosso não provém do pouco apego que temos ao que sabemos que não vamos perder? Aquele companheiro fiel e solícito, aquele cão amigo e sempre disposto, aquela mãe amorosa e presente, entendemos que estarão sempre ali, não importa o que façamos. Não nos apegamos ao que é verdadeiramente nosso, ao que imaginamos que ninguém nos pode tirar. Até que, por algum fator externo, nossa percepção se altera e nos leva a crer que algo ameaça nossas pequenas "posses". Pronto, está criado o medo de perdê-las.

Usina de força de nossas ações egoístas, violentas e preconceituosas, o medo justifica tudo. Prestem atenção: quaisquer posições excludentes, conservadoras, xenófobas, racistas, dominadoras, prepotentes, defendidas com violência, força bruta, irracionalidade e aspereza têm, em sua raiz, o componente essencial do medo. Mesmo quando este prefere não se revelar, mas ocultar-se por detrás de argumentos bem formulados, "científicos" ou "dogmáticos", ele está presente.

Dizem as tradições orientais, védicas, que só existem dois sentimentos genuínos: o amor e a ausência de amor, que é o medo. Se, como dizem, o amor é desapego, confiança, entrega, luz, o medo é de fato o seu reverso, porque é apego, desconfiança, resistência, trevas. Ou não?

O medo primordial é o medo da morte. Como todos os outros, esse medo também é falso. Afinal, a morte virá, é uma carta que já nos foi endereçada, é certeira e intransponível. Ninguém fica prá semente, não é verdade? Então, por que temê-la? Será que perder o medo da morte significa perder o apego à vida? A vida, como nos foi dada, nos será tirada, quando for chegada a hora. Isso é um fato incontestável. Viver apegado a ela significa agir com base no medo de perdê-la. Mas se esse medo é intrinsicamente falso, então nossas ações estariam assentadas em falsas bases. Não sei quanto a vocês, mas não é assim que quero viver minha existência.

Crise não deve ser confundida com medo. No sentido etimológico da palavra, crise significa mudança, oportunidade. É nas crises que nos confrontamos com momentos de decisão, e é nesses momentos que somos chamados a tomar atitudes e posições que nos definem como seres humanos. Se seguirmos a distinção feita desde as antigas civilizações, nossas ações podem ter por base o amor ou o medo, nada mais. Podemos mirar mais adiante e agir na certeza de que nada temos a perder, ou nos podemos aferrar à segurança ilusória de nossas circunstâncias e fazermos de tudo para manter e defender o pouco que acreditamos ter.

O instinto de sobrevivência existe e é sempre útil, para resguardar-nos do abrupto fim. É instinto, e sobre o instinto não adianta teorizar, porque a reação instintiva não alcança a mente, antecipa-se a qualquer decisão racional. É como tirar a mão da chapa quente: alguém pensa e reflete sobre os prós e contras de deixar o dedo queimar, antes de mover o músculo para afastar a mão da chapa?

Até aqui, nada de novo. O interessante é transpor essa lógica para a coletividade e imaginar como nossas famílias, tribos e nações tomam decisões, seguindo os mesmos padrões de apego e consciência a que nós, indivíduos, estamos sujeitos. Não pretendo entrar aqui numa discussão sociológica, imagino que nossos sociólogos já tenham escrito muito sobre essa relação, mas quero registrar minha percepção de que a emergência de uma consciência coletiva global, processo que dá indícios de já ter começado (e pretendo escrever sobre isso mais adiante), exigirá uma reflexão muito ampla sobre os limites e as estruturas dos nossos grupos sociais, a começar pelo modelo de Estado-nação. E aí, veremos como vamos reagir, individual e coletivamente, à emergência de algo novo, desconhecido, que tenderá a pôr por terra os conceitos aos quais nós mais nos apegamos. Ou não, se lembrarmos que o apego é o resultado do medo e decidirmos que nosso futuro deve ser construído em outras bases. Afinal, o que temos a temer?

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

evolução

Charles Darwin descreveu o processo de seleção natural e evolução das espécies. A ponta-de-lança desse processo é o ser humano: nada mais evoluído foi ainda descoberto no Universo conhecido.

Fomos o resultado de bilhões de anos de evolução, desde que a poeira cósmica do Big Bang começou a fixar-se na órbita dessa estrela secundária que chamamos Sol e os primeiros elementos da vida por aqui apareceram. De organismos unicelulares e amorfos, as espécies surgiram e se diversificaram. Antes de nós, habitaram o planeta mastodontes e dinossauros. Eles se foram, por conta de uma colisão de asteróide, e os mamíferos, até então seres rastejantes e escondidos em valas e cavernas, herdaram a Terra.

Em determinado momento crítico da história planetária, algum ancestral comum a nós e aos símios diferenciou-se, dominou o fogo e, tendo como arma a pedra lascada, impôs-se às demais espécies. Desde então, a evolução só se acelerou. Viramos bípedes, cultivamos a terra, domesticamos as feras, fizemos guerras, inventamos deuses, fixamo-nos em aldeias que viraram vilas que que se uniram em tribos que viraram nações que hoje são países.

A espécie humana desenvolveu a capacidade de pensar a si mesma, o que a diferencia de todas as demais espécies sobre a Terra. "Penso e sei que penso", "penso, logo existo" e muitos outros anátemas de nossa existência foram ditos e repetidos ao longo dos séculos. Tudo nos levou a crer que a evolução havia chegado ao ápice, que nossa espécie, feita "à imagem e semelhança do Criador", era o destino final de todo esse longo processo evolutivo.

E se estivermos só a meio caminho? Quer dizer, se nós não formos ainda a espécie mais desenvolvida possível, e estivermos aqui só para passar adiante esse ímpeto criador que começou lá atrás, com o Big Bang, e que está ainda ativo nos nossos cromossomos e em todas as manifestações da vida? E se formos nós os herdeiros da criação e tivermos então a responsabilidade de avançar a algo novo, totalmente impensado, mais evoluído e consciente do que nós jamais tivemos a capacidade de ser? E se uma nova e mais evoluída espécie estiver a caminho para nos substituir como senhores do planeta?

Pareceria estranho que tivéssemos chegado ao cume da criação - que todo o processo de evolução do universo fosse resultar num ser capaz de criar maravilhas e, ao mesmo tempo, causar destruição e morte. Olhe o mundo à sua volta: desespero, fome, guerra, terrorismo, egoísmo, inveja, ódio. Serão essas características compatíveis com o objetivo maior da criação? São elas compreensíveis se estivermos de fato no último e mais avançado estágio da evolução da vida?

Suponhamos que não, não somos nós, seres humanos, os ideais finalísticos da força criadora que impulsiona o Universo desde o princípio dos tempos. Só por um momento, vamos deixar de lado nossa vangloriosa capacidade de imaginarmo-nos como o que há de mais perfeito no Universo. Poderíamos concluir que estamos aqui com um propósito: preparar o terreno para o surgimento de uma consciência maior, superior à nossa, que elimine de vez os flagelos que impomos aos nossos próprios irmãos. Se este é o caminho da evolução, qual será então o futuro ser, pós-humano e pós-moderno, resultado de nosso próprio processo de criação consciente do futuro na Terra?

Em tempos de crise de valores, crise ética, moral, social, ambiental, econômica, humana, essa não parece ser uma reflexão descabida. O mundo que queremos criar para nós e legar ao futuro requer desapego, abertura ao novo, rejeição de tabus e dogmas. Requer sobretudo idéias, muitas idéias criativas - eis a própria essência da criação, em processo contínuo nas nossas consciências individuais e na evolução para a nova consciência, que será, imagino, coletiva e universal. Mas esse já é assunto para outro papo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

alguém topa repensar o futuro?

Neste início de milênio, é urgente que comecemos a definir um novo contexto filosófico, moral e espiritual que, com profundidade e amplitude de visão, seja capaz de incorporar a natureza multidimensional da manifestação humana, em toda a sua complexidade.

A parte mais importante desse projeto é, quero crer, o desejo de transformação das relações humanas, mediante a união de indivíduos em torno de um propósito maior, de modo a que mais e mais de nós sejamos capazes de intuir diretamente da fonte os contornos e parâmetros desse novo contexto social, na dianteira da evolução da própria consciência humana.

(inspirado em Andrew Cohen)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

a harmonia do coletivo

As cerimônias de abertura dos jogos olímpicos são sempre eventos vistosos, bonitos, emocionantes. Mas nunca vi nenhum que tivesse prezado tanto pela harmonia e pela coletividade quanto a abertura dos jogos de Pequim. Além do espetáculo de cores e sons, de tradições e tecnologias, de conquistas reais e feitos simbólicos, a Olimpíada começou com uma demonstração jamais vista de trabalho em conjunto, não de uma mente, mas de centenas, em perfeita harmonia e coordenação. É como se cada um tivesse abdicado de aparecer, em benefício do todo; esquecido de si para mostrar o grupo; suprimido a consciência individual para dar espaço à manifestação coletiva.

Numa época em que falamos de evolução humana a novo patamar de consciência, parece claro que o caminho a trilhar é a busca da consciência coletiva, da expressão maior daquilo que compartilhamos todos nós, seres humanos, e que sabemos reconhecer como verdade coletiva, lá no fundo de nossas existências individuais, independentemente da origem, da forma, da manifestação. E a verdade coletiva mostrou-se plena em Pequim. Não tivessem chegado a esse nível de evolução da consciência em direção ao coletivo, os chineses jamais teriam sincronizado de modo tão perfeito as batidas de tambores, a contagem regressiva espetacularmente precisa, os blocos em movimento uníssono. O trabalho coletivo foi tão impresssionante que as performances individuais, também fantásticas, foram menos notadas. E mesmo estas foram inseridas no contexto evolutivo da coletividade, das conquistas históricas e culturais provenientes daquela parte do mundo, que agora assume expressão plena, ao mostrar uma verdade de alcance global.

O colunista David Brooks, em sua coluna do New York Times de hoje, para o qual faço o link no título deste post, faz ótima comparação entre o sonho americano, de construção de uma sociedade com base no sucesso individual, na empreitada privada, e a harmonia oriental, de uma coletividade harmônica como expressão cultural máxima de um povo ou nação. Vale refletir até que ponto nosso individualismo exacerbado, à la americana, continua sendo a chave para o futuro.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Andrew Cohen sobre a criação da coonsciência

Quatorze bilhões de anos atrás, uma tremenda energia surgiu do vazio, e com o tempo evoluiu da luz para a matéria e da matéria para a vida. E com a emergência da vida, a consciência entrou no curso do tempo. Vida e consciência são uma coisa só, e quanto mais complexa for a forma de vida, maior é a sua capacidade de ter consciência. O que é tão milagroso sobre os seres humanos é que por conta do nosso cérebro altamente evoluído, temos a capacidade única de saber que sabemos. No despertar humano, a consciência ganhou a capacidade para conhecer a si mesma e a tudo o que existe dentro de si, o que inclui todo o processo evolucionário que deu origem àquela própria capacidade.

fonte: http://www.andrewcohen.org/teachings/new-enlightenment.asp

quarta-feira, 16 de julho de 2008

meditações - I

Eu não sou nada nem ninguém.
Não resido aqui nem ali.
Não tenho memória nem conhecimento.
No mundo real, eu não estou.

Sou pó gerado na formação do cosmos.
Sou tudo o que há e sempre haverá, fora do tempo-espaço.
Eu estou, eu sou, eu vou.

Alinho-me à sede de todos os seres.
Sou galho e folhas enraizados na matriz do universo.

Sou o vinho e a cruz.
Sou o perdão e a luz.
Sou amor e sou fé.

(domingo, 15 de junho de 2008)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

canção da Terra



No final deste vídeo, há uma imagem do planeta Terra e junto dela uma mensagem do Carl Sagan, que diz mais ou menos assim:

"Nosso planeta é um pequeno ponto envolvido numa grande escuridão cósmica.
Na nossa obscuridade... em toda essa amplidão... não há nenhuma indicação de que virá de algum lugar a ajuda para salvar-nos de nós mesmos...
não há talvez melhor demonstração da loucura dos conceitos humanos do que essa distante imagem do nosso pequeno mundo.
Para mim, ela revela nossa responsabilidade para agirmos com mais carinho e compaixão uns com os outros e para preservarmos e apreciarmos aquele pálido ponto azul, o único lar que nós jamais conheceremos."