Nada pode ser mais desafiador na vida do que estabelecer relações com os outros. Quanto mais próxima a relação, maior o confronto com nossos próprios medos e vazios da personalidade. Mas que fazer? Afinal, não será essa a nossa principal fonte de ensinamento e talvez mesmo a razão da existência?
Muitos de nós, quando começamos um relacionamento, cometemos o erro essencial: tentamos barganhar. Algo como "eu te amo se você me amar de volta". E ficamos na expectativa de que o (a) parceiro (a) vai demonstrar, por suas ações e palavras, que corresponde ao que esperamos, que é sermos amados. Essa é a fórmula do desastre. Na nossa ânsia implacável pelo desejo de receber (prazer, atenção, amor, qualquer coisa menos indiferença), tornamo-nos vulneráveis às nossas próprias feridas e esquecemos que o mais importante, em qualquer relacionamento, não é o que vamos receber em troca, mas o que temos a oferecer, a dar, sem esperar retorno.
Amar não é um negócio. Casamento, sim; relacionamento, não. Mas é muito difícil deixarmos de lado a nossa expectativa de que, finalmente, encontramos alguém que vai suprir as nossas necessidades crônicas, algumas que carregamos desde a infância, ou quem sabe desde outras vidas, um ser-objeto que vai preencher nosso vazio existencial, vai fornecer-nos prazer ilimitado e infinito, eterna bonança, segurança e estabilidade na vida.
Em essência, essa postura revela uma característica de todos nós, seres humanos: somos buscadores irremediáveis do prazer a qualquer custo, tais como vasos a serem preenchidos com objetos do nosso desejo. Muitas vezes, achamos que vamos preencher nosso vaso comprando, comprando, consumindo. Outras vezes, comendo. Ou fumando, ou jogando, ou fazendo sexo. E todas as tentativas de preencher nosso vaso terminam sem nos trazer o resultado que desejamos. Compramos até endividarmo-nos sem limite, ou até o limite do cartão de crédito, só para depois vermos que 90 % do que adquirimos, no fundo passaríamos muito bem sem. Vimos uma torta de chocolate e desejamos comê-la inteira. Duas fatias depois, já nem mais podemos olhar para ela. Quem fuma, algo deve ver de muito atrativo no cigarro, até que percebe que o desejo não mais lhe satisfaz. Uns param (que bom!), outros partem para vícios mais pesados, sempre na eterna busca de satisfazer algo que nem sabem o que é. Com o jogo ou o sexo, não é diferente. Claro que o sexo pode ser maravilhoso, e é em certas condições, mas quando vira uma amarra, uma compulsão que visa unicamente satisfazer esse vazio cuja profundidade se desconhece, pode também escravizar, limitar, encapsular a vida.
Enquanto passamos por essas experiências de dar vazão ao desejo, de buscar a saciedade a qualquer custo, não raro encontramos alguém que nos desperta algo diferente, profundo, instigante. Queremos mais, passamos a orientar nossas antenas do desejo para a companhia, a atenção, o toque, o amor. É neste momento que tendemos a nos comportar como fazemos com todo objeto do desejo: buscamos a nossa saciedade, achamos que ele/ela está ali para nos satisfazer, tem essa obrigação, entramos no jogo da sedução com benefícios, da esperada troca de prazer que na verdade esconde a necessidade profunda de preencher aquele nosso vaso interior que não conseguimos encher nem com compras, nem com comida, nem com cigarro, nem com jogo, nem com sexo. É inevitável que isso leve ao fim da relação, às vezes antes mesmo de começar.
Passamos, então, a outra fase: a da vergonha. Sentimo-nos envergonhados do egoísmo que demonstramos, da falta de sensibilidade para como o(a) outro(a), quando percebemos que a relação afundou por causa do abismo de nossos desejos não satisfeitos. A vergonha nos faz tampar o vaso, fechar nosso coração, impedir que qualquer novo desejo por relações se manifeste. Temos vergonha de só querer receber, mas já é tarde, não há como voltar. Ou nos fechamos de vez, ou voltamos aos desejos mais materiais: compras, comida, sexo sem compromisso.
Uma relação evoluída, iluminada, com chances de durar, requer dos(as) parceiros(as) rever essa lógica perversa de tratar o outro como o objeto do desejo. Exige que tomemos consciência de que amamos não como meio de buscar a própria satisfação egoísta, mas sim como ato de entrega, de crença na vida, de lance sem retorno, de partida sem olhar para trás. Tornamo-nos, assim, vasos que refletem o desejo mútuo de dar prazer, e ao adotar essa perspectiva de entrega total, descobrimos que amamos não para nós, mas para o outro. Continuamos, sim, nutrindo as necessidades dele/dela, porque é daí que passamos a tirar o nosso prazer, e esse abraço pelo doar-se impulsiona uma espiral ascendente e iluminada pela nossa nova postura diante da vida, inspirada no desejo de dar e não no de receber a qualquer custo.
Este é, como disse no início desse texto, o maior desafio da vida. Mas quem disse que seria fácil? A alternativa é continuarmos imersos no torpor do consumismo, da gula, da luxúria ou da jogatina. Não quero que me entendam mal, não há juízo de valor quanto à opção por qualquer dessas coisas. O melhor da história é que somos livres para optar. Mas o nosso desafio continua sendo transformar o que nos move, partir de um desejo material e narcisista, até chegarmos a um desejo de profunda conexão com o que de mais puro e elevado pode haver na existência, que é o desejo de amar de verdade, sem condições nem barganhas.
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quarta-feira, 17 de junho de 2009
domingo, 17 de maio de 2009
gripe suína
A pandemia de gripe suína está servindo para revelar, pela via do sofrimento, que estamos mais conectados, em escala global, do que podíamos supor. A imprensa parou de dar tanto destaque ao assunto, mas a infecção continua a se alastrar, mais rápido do que os agentes de saúde são capazes de detectar novos casos, limitados à capacidade dos laboratórios de processar os exames para identificar o vírus. E a chegada do inverno no hemisfério sul traz o risco de um grande aumento no surto dessa doença, contra a qual não há resistência natural.
Mas existe uma doença que é bem pior do que esta. Já tomou conta da humanidade toda e, para vencê-la, será necessário mais do que uma nova vacina. É doença da indiferença, causada pelo vírus do egoísmo, propagada pela ilusão da separatividade.
Estamos todos cada vez mais próximos, pelas comunicações, pela Internet, pelos transportes. Ao mesmo tempo, nunca estivemos tão distantes, cada um de nós encolhido na sua crisálida, com medo de um mundo que parece tão cruel, violento e assustador.
Escolhemos não mais olhar para o sofrimento alheio, criamos filtros para vermos só o que interessa aos nossos propósitos egoístas e seguimos buscando a satisfação, a qualquer preço, de nosso próprio desejo de receber prazer. O resto que se dane.
Às vezes, temos uma incômoda sensação de que essa nossa postura egoísta possa contribuir para os males do mundo, para a existência da fome, da miséria, da violência. Mas logo fechamos os olhos a essa possibilidade, porque "olhar para o monstro" não é uma atitude fácil, requer coragem e discernimento, então é preferível continuar culpando os políticos e os marginais e olhar para o "sistema" com a indiferença de quem dele não participa, por ele não é responsável, não está nem aí.
E foi justamente essa indiferença que contaminou o mundo, alastrou-se em pandemia por todos os continentes, continua a manter-nos separados por uma barreira tão sólida quanto os muros de nossas casas, que nos dão alguma ilusão de segurança, ilusão essa com a qual preferimos continuar nos enganando.
Se um dia superarmos o vírus do egoísmo, veremos que a mesma vida que surge e se manifesta em mim também existe em você e em todas as criaturas vivas. Talvez então possamos compreender que nada mais somos do que partes de um processo maior, de uma consciência universal e infinita, que se desdobra em constante processo evolutivo, do qual somos apenas um aspecto, tão importante quanto qualquer outro ser em que o mistério da vida se manifesta.
Se quisermos adquirir essa nova consciência, precisaremos, em algum momento, deixar de nos vermos separados, isolados, com medo uns dos outros, reativos e reticentes à mera ameaça que possa questionar nossa instável ilusão de equilíbrio e conforto. Talvez nesse momento surja em nós um desejo de doar, que seja maior do que o de receber, que nos faça agir em função do que nós podemos oferecer ao mundo, mais do que dele extrair, que substitua em nossa psiqué o egoísmo pelo altruísmo, o desejo de separação pelo desejo de comunhão, a indiferença pela solidariedade.
Quem sabe, então, possamos curar a Terra de todos os males.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
como transcender a pós-modernidade?
Acabo de voltar de um retiro de fim de semana em Lenox, Massachusetts, com Andrew Cohen (foto), o guru americano da pós-pós-modernidade. Foi uma experiência fascinante, ainda tenho que digerir tantos conceitos revolucionários de quem está engajado em criar a consciência para uma nova era, que transcenda a pós-modernidade, esse período caracterizado pelo narcisismo, nihilismo, exacerbação do ego e separatividade. A visão de Andrew é fascinante, descreve o processo evolutivo da consciência como parte de um processo maior, cósmico, infinito, um impulso evolutivo primordial que se desenrola desde o Big Bang e prossegue no ato de criar a si mesmo por intermédio das nossas próprias consciências individuais. Seu ensinamento nos reposiciona diante do cosmos. Retira-nos do centro, porém mantém nossa importância essencial a todo o processo, porque o caminho da evolução se daria pela emergência de uma consciência coletiva, transpessoal, da qual somos veículos, e pela qual temos total responsabilidade. Registrei minhas impressões em outro blog, para iniciados e interessados em assuntos de consciência e evolução. Quem tiver interesse, pode ler na íntegra em para crescermos juntos.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
mulher guerreira
Conheci a Val em Brasília, quando ela foi visitar o Moroni, antes de ele se mudar para a Nova Zelândia. Ela mantém um blog e fotos no multiply. Recebi este post dela, chamado A Minha Lição de Vida, e achei que devia compartilhá-lo aqui. A vida é dela, mas a lição é para todos nós. A Val é uma mulher guerreira, que não se curva diante das adversidades da vida. Consegue encontrar coragem e resignação para continuar na luta, com paciência e fé. O texto dela, um pouco longo, é cheio de humanidade e verdade. Insisto que você entre lá e leia até o fim e conheça a história dessa fantástica mulher.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
qual idioma você deveria aprender?
Fiz um teste on-line para saber qual idioma eu deveria aprender, e o resultado foi...
You Should Learn Japanese |
You're cutting edge, and you are ready to delve into wacky Japanese culture. From Engrish to eating contests, you're born to be a crazy gaijin. Saiko! |
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